sábado, 20 de fevereiro de 2010

É certo iniciar um discurso dizendo: "Boa noite a todos e a todas?"

Constantemente ouço essa pergunta e confesso, tinha dúvida. Sempre respondi que o pronome indefinido todos, já abrange a plateia, independente de sexo. Entretanto ouço pessoas cultas fazerem esse discurso e por isso fui pesquisar. Então, constatei que trata-se de mais um modismo da nossa língua.
Perdoe-me o ilustríssimo colega Roberto Leiser Baronas, mas copiei a sua página para esclarecer a dúvida. Eis o que ele diz a respeito:



SEXO NA LÍNGUA

Roberto Leiser Baronas
Já há algum tempo ouço no início da fala pública de algumas pessoas, em forma de cumprimento, o(s) seguinte(s) enunciado(s): bom dia, boa tarde ou boa noite a todos e a todas. Convém dizer que esse uso lingüístico, marcando sexualidade no vocábulo “todos”, se transformou numa verdadeira moda não só em nosso país, mas também na maioria dos países lusófonos. Diante do uso reiterado desse tipo de enunciado(s) e a estranheza que ele me causa e, a alguns colegas lingüistas, fui mobilizado a escrever este texto tecendo algumas breves considerações. Chamo de estranheza, pois a maioria das pessoas que ouvi dizer esse enunciado possui um alto grau de escolarização, portanto, pelo menos em tese, pessoas acostumadas submeter a realidade à crítica.
Quando esses falantes enunciam tais cumprimentos, o fazem confundindo sistema abstrato de regularidades (fonológicas, morfológicas, sintáticas), com o funcionamento discursivo desse sistema. Caso não existisse essa diferenciação, poderíamos pensar na seguinte analogia: se a sociedade é constituída por diferentes grupos sociais e a língua é o reflexo desses grupos, teríamos então tantas línguas quanto são os grupos sociais. Ou grosso modo exemplificando, nós trabalhadores teríamos uma língua distinta da dos burgueses. E isso é um óbvio absurdo.
Uma outra confusão que esse tipo de falante faz, embora acredite ser politicamente correto, é confundir gênero gramatical com gênero sexual. Na Lingüística Brasileira, essa distinção foi feita ainda nos anos sessenta do século passado por Mattoso Câmara, um dos nossos primeiros lingüistas. Ao descrever a língua portuguesa, no capítulo sobre morfologia, o professor Mattoso Câmara nos chama a atenção para o fato de que diferentemente do que advogam muitas das gramáticas normativas do português, todos os nomes da língua portuguesa (substantivos, adjetivos) possuem gênero gramatical, mas só alguns possuem gênero sexual. Assim, é equivocada a interpretação que, a partir de uma relação direta entre língua e sociedade ou cultura, vê indícios de discriminação contra a mulher no enunciado bom dia a todos. É como se o sentido do vocábulo “todos” estivesse preso ao único referente: ser humano do sexo masculino. Nesse caso e, ampliando um pouco mais a questão, como ficaria o cumprimento aos homossexuais?
Diante do que foi enunciado até aqui, acredito que esteja ficando mais "entendível" a tese implícita de que entre língua, sociedade ou cultura as relações não sejam tão diretas, como imaginam as pessoas que produzem tais enunciados. Com isso, não estou querendo dizer que a língua não seja o lugar privilegiado de materialização de ideologias. Pelo contrário, o que estou tentando enfatizar é que o sistema, enquanto conjunto de regularidades lingüísticas possui uma relativa autonomia em relação às ideologias.
Acredito que o enunciado seja relativamente suficiente para nos mostrar que as relações entre língua e sociedade ou cultura se dão no uso efetivo da língua, estes entendidos não como uma mensagem ou informação, mas como a linguagem em processo de discursivização. O que implica dizer que o machismo, ou o preconceito étnico, ou sexual, ou qualquer outro tipo de deformação da realidade se inscreve na ordem do discurso e não na ordem da língua (fonologia, morfologia, sintaxe).
Assevero que esse tipo de cumprimento faça parte de um discurso maior que vem tomando conta da nossa sociedade. Atualmente todos os nossos sentimentos e práticas são calculados, espetacularizados e positivados por uma espécie de humanismo político de "boas intenções". Trata-se de um movimento ocidental que se constitui numa espécie de cruzada iluminista que esclarece sobre o uso não-sexista da língua, pedofilia, machismo, drogas, homossexualismo, violência doméstica, idosos, ecologia, armas, preconceito racial que produz e comercializa um imaginário de cidadania. Nesse momento, nada, nem ninguém escapa desse fundamentalismo mercadológico de ocidentais práticas do politicamente correto.
Pensemos um pouco a respeito, caso contrário, corremos o risco de sair por aí dizendo bobagens tais como a de que a língua portuguesa é machista, pois a maioria dos palavrões pertence ao gênero feminino; que existe um "zoomorfismo" lingüístico no futebol brasileiro, pois temos porco para palmeirense; urubu para flamenguista; gavião para corintiano; peixe para santista; galo para atleticano e assim por diante. O anteriormente exposto evidencia que as Ciências da Linguagem têm muito a nos dizer sobre o funcionamento das línguas. Até um próximo encontro.

Roberto Leiser Baronas é Doutor em Lingüística e Professor no Departamento de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Lingüística da UFSCar.